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Solidão impossível - 1

Graças às novas tecnologias,
ninguém mais precisa ficar sozinho -  o problema é conseguir ficar sozinho.
Saiba como chegamos à overdose de comunicação
e por que é preciso aprender a ser só.

      Segundo o Instituto Nielsen, 70% dos internautas brasileiros participam de comunidades virtuais como o Orkut - no Brasil, 1º lugar, são 80%. Mas scraps e pedidos de “me add”, junto com bate-papo no MSN, são apenas o kit básico.

      Há quem visite álbuns virtuais como Flickr e Picasa para acompanhar outras vidas foto a foto. Leitores de RSS fazem delivery de qualquer atualização feita num blog, e o StumbleUpon mostra cada link que alguém achou legal. E agora vem crescendo o Twitter, cujo limite de 140 caracteres por post, longe de ser um empecilho, parece que estimula a escrever mais. A ferramenta de microblogging ainda nem consta no top 100 da internet no Brasil, mas a facilidade para publicar e seguir outros twitteiros pelo celular deve mudar isso logo - Cláudia, uma jovem de 17 anos, ficou bem interessada.

      O auge dessa overdose de comunicação parece ser a ferramenta Google Latitude. Com ela, o dono de um celular com GPS permite que seus contatos saibam onde ele está (mais especificamente, onde está seu telefone). Pra quê? Bom, a ideia é que você olhe no mapa quem está perto de você e convide para um chope, peça uma carona, persiga até em casa, sei lá. O fabricante garante: só dá suas coordenadas quem quer. E muitos querem.

      Claro, talvez o perfil mais comum seja o de quem entra no Orkut só de vez em quando para conferir aniversariantes e solteiros. Mas há quem seja usuário simultâneo e frequente de todos os serviços citados acima, o que leva sociólogos e psicólogos a se preocupar. Na verdade, fugir da solidão é natural: estamos apenas seguindo os nossos instintos.

“Eu quero ter um milhão de amigos”

      Sempre que o rei Roberto Carlos canta a frase acima, ele fala por todos nós. Grandes predadores como ursos e tigres se isolam das suas espécies para evitar competição por comida e território. Lobos e leões caçam em grupo, mas se separam em tempos de presas magras. Já para animais sociais, como pinguins e humanos, quanto mais companhia, melhor.

      Há milhões de anos, nos agregávamos para obter calor, comida, proteção na infância e amparo na velhice. Mais adiante, buscávamos cultura, dinheiro, poder, diversão - só em grupo eles fazem sentido. “Normalmente, as pessoas não buscam passar períodos sozinhas, da mesma maneira que não buscam períodos de fome, sede ou dor”, diz o psicólogo da Universidade de Chicago John Cacioppo, coautor, com o jornalista William Patrick, do livro Loneliness (”Solidão”, sem edição brasileira), que mostra os prejuízos da vida solitária. “Solidão é um sentimento aversivo que motiva você a fazer algo que é crucial para a sobrevivência e o bem estar - conectar-se com os outros.”

      Ao longo da história, os eremitas foram sempre exceções à regra - e admirados como tal. Profetas bíblicos, brâmanes hindus, monges budistas, santos católicos - entre seus diferenciais estão a capacidade de ficar em silêncio, longe de todos. Já o resto de nós sempre encarou o isolamento como um incômodo gradativamente solucionado pelo progresso. Momentos de introspecção obrigatória (caçadas, longos deslocamentos) caíram ao mínimo (trânsito, banho). Nas grandes cidades, a não ser que você esteja dentro de um túnel (e já tem metrô com sinal de celular), cada segundo pode ser preenchido com a presença virtual do outro.

      Visto dessa forma, o Twitter e o Google Latitude são só parte do capítulo mais recente de uma história que começou lá atrás, com sinais de fumaça. A questão é se essas são boas ou más notícias.

Más companhias

      Se buscar amigos virtuais é um instinto natural, qual o problema? Bem, se alimentar também é, e vivemos uma epidemia de obesidade. O fato é que alguns progressos nos obrigam a ir contra a nossa intuição. “Somos programados para buscar convivência, tanto faz se real ou virtual - a princípio, nosso cérebro considera as duas a mesma coisa. Mas, se a socialização online substitui o contato humano verdadeiro, solidão e depressão podem surgir”, diz o professor Cacioppo.

      Para ver se as novas ferramentas de comunicação estão realmente mudando nossos relacionamentos, a pesquisadora Rhonda McEween, da Universidade de Toronto, acompanhou de perto o destino de telefonemas, torpedos, e-mails e todo tipo de socialização online de alguns estudantes de 1º ano da faculdade. Ética pedagógica à parte, o que o estudo dos calouros mostrou foi que os alunos deixam de criar laços na faculdade porque vivem online com os ex-colegas do ensino médio. Driblando momentos isolados na biblioteca e no refeitório graças a seus iPhones e Blackberrys, os alunos da senhora McEween não sabem ficar sozinhos. “Alguns estudantes não tem o conceito de uma vida off-line”, diz ela no relato do experimento.

      A evaporante “Capacidade de Estar Só”, é justamente o nome de um artigo muito influente que o psicólogo Donald Winnicot escreveu nos anos 50. O americano considerava a habilidade de ligar com a solidão um índice fundamental de desenvolvimento emocional, algo que se começa a adquirir na primeira infância, quando o bebê descobre que ele é um e a mãe é outra. Para o sociólogo Danton Conley, da Universidade de Nova York, essa capacidade vem sendo desencorajada pouco a pouco. “Podemos estar formando uma geração incapaz de ficar sozinha, refletir, que não desenvolveu a introspecção. É cada vez mais difícil desplugar e ter só uma fonte de informação na cabeça”, diz o autor de Elsewhere, USA (”Noutro Lugar, EUA”, sem edição brasileira), que analisa como a comunicação online está mudando a sociedade americana. “As pessoas ficam ansiosas, com medo de ficar de fora de algum assunto, e por isso estão sempre checando seus e-mails. Mas esse hábito traz mais ansiedade.”

      Já que lá atrás falamos em obesidade, vale mencionar que a convivência virtual já ganhou o nome de social snacking, ou “fazer lanchinhos sociais”. Lanche não é refeição, e isso explica parte do problema. Por outro lado, um jejum de comunicação, como qualquer dieta, é só uma questão de força de vontade.

 

Ficar na sua e pensar na vida vai contra o nosso instinto, mas é fundamental para amadurecer.

Fonte: Revista Super Interessante, maio / 2009.
  Texto: Emiliano Urbim                                      
Design: Jorge Oliveira                                      
Ilustração: Simon Fernandes                            



 
 

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